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O Caravelle de Leste

Era uma manhã Primaveril dos inícios de Abril do ano da graça de 1967.
Esbaforido algures na socialista e bonita capital Sofia, um agente da extinta Darzhavna Sigurnost, ou somente DS como era chamada a então Policia Secreta(Politica) Búlgara dava a “boa nova” ao agente da KGB adstrito a esta capital europeia de leste e na altura sob óbvio domínio da URSS. Alto lá que o nosso agente soviético ao serviço da sigla das três letras mais famosas da altura até deve ter engolido em seco.
Não deve ter passado muito para que tivesse informado os seus dirigentes nos gabinetes do Kremlin do “Crime e Traição” económica que se estava quase a consumar em terras da vizinha e camarada Bulgária.
Uma das companhias aéreas deste país estava em vias de comprar um modelo de aeronave ocidental…sim, isso mesmo, um bonito e elegante Franco Caravelle.
E quem estava por detrás desta tão ousada compra?
Pois muito bem…era uma companhia aérea que dava pelo nome de Bulair.
E quem era esta Bulair, perguntai vós..?
Esta Bulair, versão abreviada e catita de Bulgaria Air, era fundada por e pertença de um grupo comercial búlgaro chamado Teksim.

Os executivos desta Teksim há já uns tempos que andavam debaixo de mira tanto da KGB como da DS, não so devido à sua libertinagem capitalista a nível de comercio e maneira negocial, como ainda por amiúde biscarem um olho ás politicas e materiais do lado de cá da cortina de ferro. Mas bolas, bolas… comprar um Caravelle com tantos e bonitos “Tupoleves e afins” logo ali á mão de semear não somente ficaria mal como iria dar muito pano p´ra mangas, um puro sacrilégio à vista dos nobres bastiões socialistas por certo. Nada os fazia prever lá no alto das suas esferas de vigilâncias secretivo-políticas que os nossos amigos na Teksim, e que se tinham humildemente estreado na aviação como versão agrícola e pulverizações, se fossem esticar a este ponto!
Os nossos camaradas visionários na Teksim ainda por cima não escondendo a sua pretensão de adquirir o bendito Caravelle, como ainda por cima a publicitaram aos sete céus.

DAE

A Cerimonia seria dali a umas horas no Hotel Balkan em Sofia, precedida pela ida ao Aeroporto da cidade, também conhecido como Vrazhdebna, onde o nosso menino francês já la estaria resplandecente para quem o quisesse apreciar.
Basicamente o programa das festas era este:
O bonito Caravelle, com numero de serie 221, versão VI-R, era voado para este aeroporto logo pela fresquinha, faziam a apresentação aos Media, e á noite no Hotel era a festa comemorativa deste enorme passo para a companhia Teksim, através da sua filha aeronáutica, a já falada Bulair.
O nosso Caravelle seria destinado principalmente ao seu novo estreante nicho, os voos ITCs.

Mas Não…heresia, isto jamais poderia acontecer.
Reza a historia que passadas 3 horas e meia já estava a aterrar um avião em Sofia directamente de Moscovo com meia dúzia de altas patentes Soviéticas para ver mesmo in loco o que se estava a passar…
…e obviamente nem foi preciso perceber muito do seguimento.
Os nossos amigo da Teksim/Bulair não so foram sugeridos a abandonar o negocio e a ideia, como ainda por cima quando esse serão chegou não houve festa no hotel para ninguém….slot cancelled.
Quanto ao nosso Caravelle , cerne da questão, antes que aquilo desse também para o torto e ao invés do que aconteceu á equipa da Teksim que teve a brilhante ideia de la os levar a apresentar a sua bonita e elegante aeronave, estes ainda se conseguiram safar a tempo e horas, pisgando-se ate terras líbias, mais concretamente Tripoli, conforme o seu Plano B. Para os mais curiosos assim que la chegou a TIP foi logo registado como 5A-DAE, inicialmente para voando a KLA-Kingdom of Libya Airlines e posteriormente para a já mais conhecida LAA-Libyan Arab Airlines, sucedendo a primeira, conforme a foto em anexo. Por sinal seria por Tripoli que iria acabar os seus dias ate ser retirado de serviço.
E quanto aos nossos amigos da Teksim o que lhes aconteceu a seguir?
Bem…foram todos engavetados por ordem de prisão politica(pelo menos os ligados ao projecto do CRV), fazendo seguimento á sua acusação estatal por crimes de comportamento capitalista a nível de trocas comerciais e gestões económicas numa maneira muito “ocidentalesca” da coisa.
Mas alto lá…nem todos foram dentro…alguns ainda ficaram cá fora.
E que foi então negociado para que tal não voltasse novamente a acontecer ou viessem os senhores a ter “Ocidentais Tentações” em versão deja-vu num prurido irritante e pseudo-capitalista que la escangalhasse a açorda de novo?
Pois é…os amigos Soviéticos comprometeram-se a mostrar aos amigos “desanimados” búlgaros e logo em primeira mão, para depois ser vendido ao “preço da uva-mijona” aquele que seria o então na altura Caravelle Socialista e acabadinho de se estrear nos céus, ou por outras palavras, o seu Tupolev 134, onde não falhando com a sua palavra, acabariam logo por vender, ou melhor, oferendar a TABSO(mamã da saudosa Balkan Bulgarian Airlines) com os primeiros Tu-134, prontinhos para as curvas na Europa, Norte de África e Médio Oriente, ainda nesse corrente mas já quase findo ano de 1967.
Por ironia dos destinos quis o grande Deus Soviético que a nossa Bulair voasse os anos seguintes a este episodio de 1967 e ate meados de 1972 como uma divisão charter e de conveniência para a TABSO, depois Balkan, ate que tendo já lucros substantivamente porreiros para a sua humilde visão neo-socialista, fosse “extiguida” pela mãe TABSO/Balkan.
E por hoje nos ficamos nesta singela historia de como um mero mas sempre nostalgicamente belo Caravelle escreveu uma das mais catitas historias de “dissidências politicas” do ex domínio soviético “á la Andrei Sakharov”.
Fiquem bem e curtam muito Jetnoise, fuel e afins J


Cesário Fernandes


Nota: Todos os textos publicados na secção blogger integram um espaço de participação dos leitores e seguidores, que convidamos para tal. São da responsabilidade do autor, sendo que não expressam necessariamente a opinião da NEWSAVIA.
Cesário Fernandes - Blog - NewsAviaO seu primeiro emprego na aviação foi como “ moço de recados” do Aeroclube de Faro, decorriam os inícios dos anos 90.
Em 94/95 tirou a licença PCA – Piloto comercial de avião.
Voou comercialmente entre 1995 e 2010, fazendo uns biscates aqui e ali, e depois realizou o upgrade para linha aérea em 2001.
Foi instrutor teórico no Aeroclube do Algarve, em Portugal, e oficial de placa na TAP em 1996/1997.
Entrou depois para a ANA (Aeroportos de Portugal)  como Oficial de Operações Aeroportuárias, nos finais de 1997, indo até 2010 conciliando os voos com a actual profissão.
Voava tudo,  desde publicitários, táxis aéreos, vigilância, quando, a determinada altura deixou de voar (por motivos pessoais).
Continua um apaixonado pela aviação, e na sua  empresa (Aeroportos de Portugal) é ainda formador nas áreas de documentação e legislação aeronáutica.
Cesário tem uma segunda paixão, a música. Pode seguir esta sua faceta aqui no seu blogue pessoal:

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