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Reabastecimento Aéreo no Trident Juncture 2015

O reabastecimento aéreo é uma das componentes mais fascinantes da aviação, mas também uma das mais exigentes a nível de procedimentos e segurança. Uma equipa de reportagem da NewsAvia deslocou-se até à ilha espanhola de Palma de Maiorca para acompanhar uma missão da Força Aérea Americana (USAF) inserida no Trident Juncture 2015 (TJ15), o maior exercício da NATO desde 2002.

Sendo o objectivo principal do TJ15 demonstrar a capacidade da NATO em planear, preparar, projectar e sustentar as forças militares e meios atribuídos no teatro operacional, o reabastecimento aéreo desempenha um papel vital no cumprimento desta meta. Como tal, foram destacados para o Mediterrâneo dois aviões reabastecedores Boeing KC-135 Stratotanker e quase 50 elementos da 100th Air Refueling Wing, baseados em RAF Mildenhall, Inglaterra. É nesta aeronave que iremos rumar aos céus da Península Ibérica.

100th ARW Trident Juncture

Estamos em plena hora de almoço, a duas horas da nossa previsão de descolagem. Ao chegarmos à Base Aérea de Son San Juan, a primeira aeronave com que nos cruzamos não é residente, nem da USAF, mas sim um Airbus A310MRTT da Luftwaffe que também cumpre o papel de reabastecedor. A presença de outra nação, a juntar a toda a infraestrutura da Força Aérea Espanhola, promove a interoperabilidade entre as forças, a começar pela sala de operações conjunta. De um lado, a bandeira americana, do outro, a bandeira alemã. Aliás, os caças que iremos reabastecer neste voo são F-16CM americanos do 480th Fighter Squadron temporariamente destacados em Portugal para o exercício, na Base Aérea de Beja, mas normalmente baseados na… Alemanha!

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Na aviação militar a flexibilidade é a chave do poder aéreo, afirmação que viria a ser comprovada ainda antes de saírmos do edifício de comando. Numa informação de última hora, encontramo-nos de súbito com combustível a mais para a missão que vamos realizar, já que o reabastecimento nocturno ao largo de Portugal de dois MC-130J das Operações Especiais Americanas, que compunham a segunda parte do nosso voo, já não vai acontecer. Um mero detalhe que não chega a ser problema graças à margem de quatro horas de voo com que o KC-135 costuma operar. Tanto pode prolongar a missão por mais duas horas, como pode regressar mais cedo à base. Todo o planeamento efectuado é rigoroso dada a necessidade que os aviões têm em ser reabastecidos para o cumprimento das missões devido à distância ao seu objectivo ou ao facto de terem de permanecer em determinada zona para além da sua autonomia.

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Ao aproximar-nos do KC-135 as linhas de design denunciam o modelo que serviu de base para o seu desenvolvimento nos anos 50 e 60: o mítico Boeing 707! Nada mais nada menos que o primeiro jacto da construtora norte-americana. O Stratotanker é apenas um de cinco modelos de asa-fixa que servem continuamente o seu operador militar inicial há mais de cinquenta anos, marco inevitavelmente associado à implementação de vários upgrades ao longo da sua vida, como por exemplo o retrofit dos motores para a versão CFM-56, instrumentos e aviónicos novos, ou a instalação de um APU na cabine (bastante barulhento por sinal).

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Ao entramos na aeronave através de um alçapão no cockpit, somos apresentados à Senior Airman (SrA) Danielle Repp, terceiro e último elemento da tripulação, que cumpre as funções de operadora de boom ao coordenar e operar os mecanismos necessários durante a missão de reabastecimento aéreo, quer seja no espaçoso cockpit, onde serve de assistente aos pilotos, ou na cauda do avião, onde se encontra a sua estação de trabalho.

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O trabalho da SrA Repp assemelha-se ao de um controlador aéreo com funções acumuladas de gestora de missão, ao organizar a posição das aeronaves enquanto reabastecem à vez ou em simultâneo nos três locais designados para o efeito, na ponta das asas e na cauda, fazendo também as comunicações com os vários pilotos envolvidos na operação e ainda com as formações em espera pelo seu slot. Tudo isto enquanto manobra o braço telescópico mais conhecido por boom, que conecta aos aviões para a transfega de combustível, operação que contempla a partir de uma ampla janela que permite uma visão fabulosa de todo este processo.

A cabine escura e despida de conforto do KC-135 serve de palco para o discurso de segurança onde somos presenteados com um colete salva-vidas e uma máscara de oxigénio que mais se assemelha às utilizadas em cenários de guerra química ou nuclear, já que envolve a cabeça na sua totalidade em caso de utilização, devendo estar ao nosso alcance próximo em todas as fases do voo. Amarramos todos os equipamentos fotográficos aos cintos de segurança dos bancos de lona onde nos vamos sentar, já que não existem compartimentos próprios para os guardar, incluindo o reforço que levamos connosco composto por: três baguetes de presunto e chourição (deliciosas, por sinal), dois donuts recheados com chocolate, duas peças de fruta e uma garrafa de litro de meio de água, essenciais para as missões de longa duração.

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Descolamos em direcção a oeste até à zona de Albacete, a 400km de distância, onde reabasteceremos três F-16 com o callsign Weasel. Enquanto esperamos por eles, é possível assistir mais abaixo ao reabastecimento de quatro Eurofighters por parte de um Airbus A330MRTT inglês, destacado para a base madrilena de Torrejón durante o exercício. Comparado com o A330, o KC-135 é uma aeronave obsoleta e com os dias contados. O seu substituto, o Boeing KC-46, encontra-se em fase de testes de voo e começará a substituir gradualmente a frota de reabastecedores dentro de dois anos.

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Chegou finalmente o momento que tanto esperávamos. Encontramo-nos a 25 mil pés de altitude e 350 nós de velocidade. A SrA Repp instala-se na estação traseira, num piso inferior à cabine e com espaço limitado onde apenas cabe deitada. À medida que o primeiro F-16 se aproxima, com recurso a um jogo de luzes na barriga do nosso avião, uma espécie de PAPIs que o ajudam a posicionar-se correctamente, a operadora controla o boom com o joystick ao manobrar duas pequenas asas na extremidade do mesmo que através do efeito aerodinâmico levam o braço telescópico até à outra aeronave, evitando assim contactos inadvertidos com outros componentes. “Estamos essencialmente a voar o boom”, afirma Danielle. À margem disso, os outros dois caças aguardam a sua vez na nossa asa, aproveitando para posar para as fotografias.

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Cada reabastecimento demora cerca de dois minutos com a transferência de entre quatro mil a dez mil libras de combustível JP-8. Durante esse período, Danielle está encarregada de supervisionar toda a operação enquanto que os pilotos limitam-se a manter as aeronaves estáveis no circuito predefinido, tanto em voo nivelado, como em volta, já que a área onde realizamos esta operação é limitada, obrigando a circuitos elípticos para permanecer na zona restrita. “Os desafios que encontramos durante um reabastecimento aéreo mudam de dia para dia, mas o maior deles todos é a metereologia, principalmente a turbulência quando afecta a estabilidade das aeronaves durante as manobras de posicionamento”.

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Ambas as aeronaves parecem ser voadas com uma precisão estrondosa, e ainda por cima tão perto uma da outra. É-nos possível olhar à vertical para dentro do cockpit do F-16 e observar o piloto em detalhe, naquela que é certamente uma das visões mais espectaculares que a aviação pode proporcionar. Com a mesma rapidez que chegaram, desaparecem para cumpriem a sua missão, mas dentro de uma hora estarão de regresso para transferirmos o combustível que necessitam para regressarem à base já ao pôr-do-sol. Até lá, continuaremos às voltas na área designada. O processo repete-se mas desta vez somos recompensados com uma belíssima formação 3-ship, com os pilotos dos caças a perguntarem como poderão ter acesso às fotografias. Tal não é o espanto, quando lhes dizemos pela frequência que somos portugueses e que nos deslocaremos a Beja para entregar as imagens pessoalmente dentro de uma semana.

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No regresso à base sentamo-nos no jumpseat e estranhamos o facto de o co-piloto narrar todos os procedimentos que efectua enquanto o Comandante permanece calado, mas durante a aproximação ao Aeroporto de Palma chegamos à conclusão que se trata de um voo de instrução para passagem a comando. A aterragem em Palma realiza-se já de noite, na pista 24R, habitualmente utilizada para descolagens, chegando assim ao fim uma missão de quatro horas.

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À data da reportagem da NewsAvia, a 100th ARW havia transferido mais de 100 mil libras de combustível em apoio a cerca de 130 aeronaves de 10 nações diferentes, ao longo de 55 horas de voo. E ainda tinham metade do TJ15 pela frente.
Texto: André Garcez / Jorge Ruivo
Fotografia: André Garcez / Jorge Ruivo

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