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Sobre trabalhar no que se ama

Recentemente, um meme começou a se espalhar pelas redes sociais, tendo como base a célebre frase “Trabalhe em algo que você ame e você nunca terá que trabalhar um dia na vida”. O meme, no entanto, a desaprovava, sugerindo que ao fazê-lo, você iria trabalhar demais, não respeitando os limites entre o trabalho e sua vida pessoal, e por isso você levaria tudo que acontecesse na sua profissão de forma muito pessoal. Uma vez que aqui no blog e na Newsavia falamos de aviação e estamos diretamente envolvidos em um segmento que tem um componente sentimental inegável, gostaria de dividir com vocês a minha maneira de ver tudo isso.

Não nasci ontem. Não sou muito velho também, mas nos últimos vinte anos, passei por algumas profissões. Aos 18 anos, escrevi meu primeiro romance. Aos 21 comecei a trabalhar como redator publicitário. Aos 25 fiz meu primeiro voo como comissário, mas foi somente aos 34 que comecei a trabalhar como piloto de linha aérea, meu sonho desde a mais tenra infância. Incluindo algumas aventuras de empreendedorismo, que incluem uma marca de roupa mal sucedida e uma banda ótima em tempos pré-youtube, tudo que fiz, fiz apaixonadamente. E sempre acreditava que era para sempre, o tal “infinito enquanto dure” de Vinícius de Moraes.

Talvez eu seja fraco, mas só consigo fazer bem o que realmente quero fazer. E por isso mesmo, tenho imenso respeito por todas as profissões que eu não queria ter, mas muita gente tem e as faz bem, das mais complexas às mais humildes. Em especial no segmento da aviação, onde uma infinidade de pessoas, da limpeza do aeroporto à tripulação de cabine, passando por pessoal do handling, agentes de aeroporto, despachantes de voo, mecânicos, trabalham dedicadamente para que nós, pilotos tenhamos o privilégio de simplesmente… pilotar, isso fica ainda mais evidente. Ontem, ao tocar o solo de Muscat ao sol poente, desaceleramos, taxiamos e paramos no stand. Uma hora e meia de voo. Quantas dezenas de pessoas, a começar pela escaladora que me ligou no sobreaviso na manhã daquele dia, trabalharam para que eu pudesse desacoplar o piloto automático ao avistar a pista?

É bem difícil sim separar trabalho de vida pessoal quando você é apaixonado pelo que faz. Mas a maturidade nos traz essa capacidade, e o ambiente extremamente regulado e exigente de uma companhia aérea não deixam você esquecer que o melhor que você pode fazer pela sua carreira é ter uma postura estritamente profissional. Amar a vista, o “escritório”, o ofício e o privilégio de conectar o mundo não significa deixar de virar madrugadas trabalhando, perder o Natal com a família, ou poder escolher não usar gravata num dia quente de verão. As coisas boas fazem com que os sacrifícios tornem-se mais leves, o que por si só é um privilégio num mundo onde a maioria das pessoas trabalha no que não gosta, só pelo dinheiro, ou às vezes, nem isso. Mas não é menos trabalho. Se hoje a aviação é o meio de transporte de massa mais seguro que existe, numa cadeia intrincada de muitas habilidades e tarefas diferentes e complexas, boa parte disso se deve ao amor de quem a faz, algo que se nota claramente no dia a dia da nossa profissão. E isso, uma frase de efeito não consegue resumir.

Se você não escolhe com quem, para onde e quando voar, é trabalho. Mas não há pecado em reconhecer isso, aproveitar a vista, a companhia dos bons colegas, e um dia, quem sabe, colocar um jeans, um par de All-Star e voar de Cessninha de novo, ao poente de um fim de semana.

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