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Os laços que nos unem

Recentemente recebi um convite que muito me honrou. E ele só foi possível porque uma grande armada a caminho da Índia fez uma parada no litoral da América do Sul, exatos 517 anos atrás.

Fazia oito meses que Vasco da Gama retornara de sua gloriosa viagem ao Oriente, e conforme instruído por ele e por seu antecessor, o épico Bartolomeu Dias, Cabral fez com que seus pilotos dirigissem a armada por uma manobra que ficou conhecida como “a volta do mar”. Para evitar as calmarias do Golfo da Guiné e seus ventos e correntes contrários, as naus e caravelas afastavam-se para Oeste antes de irem para o Sul, e muito depois, voltarem-se para o Leste a fim de cruzar o “Cabo das Tormentas” – rebatizado de “da Boa Esperança” pelo Rei D. João II – e ingressarem no Índico. Vasco da Gama já reparara na aves e algas que encontrara nesse longo laço que abraçava boa parte do Atlântico Sul, sugerindo que terras, análogas às encontradas no início da década anterior por Colombo, poderiam estar escondidas no horizonte. A caminho da Índia, Gama não podia se dar ao luxo que Cabral se deu, de navegar algumas léguas mais a Oeste.

Quarenta e três dias após deixar Lisboa, a maior armada já lançada ao oceano por Portugal, com dez naus e três caravelas – uma das naus “comeu-a o mar” nas proximidades das Canárias – começou a ter sinais claros de que algo estava por acontecer. Os habilidosos pilotos de então, os melhores do seu tempo, seguiram a trilha de algas e aves marítimas, e ao cair da tarde de 22 de abril de 1500, a cerca de 70 quilômetros da costa, Cabral e seus comandados, constataram no horizonte a presença de “um grande monte mui alto e redondo”. Avançando cautelosamente por mais 40 quilômetros, ao poente, a frota lançou suas âncoras: elas desceram 34 metros antes de tocarem o fundo arenoso. Estava descoberto o Brasil.

A fascinante História, contada por Eduardo Bueno e tantos outros, relembra o momento em que este chão onde nasci tornou-se parte, para o bem e para o mau, de uma coisa maior. Se hoje comemos bacalhau na Páscoa e nos entendemos embora vivamos em cantos tão distantes do planeta, é porque meio milênio atrás, um pequeno reino pobre mas obstinado decidiu que estabeleceria, pelas armas e pelo comércio, sua independência do restante da Europa. Guardadas as devidas proporções e observadas algumas diferenças gritantes, em meados do século XVI, Lisboa era uma espécie de Dubai dos dias de hoje, e a marinha portuguesa, algo como a americana atual.

Lusoavia - 1ºeventos internacional de Aviação dos Países LusófonosO convite, que me foi feito por Frederico Fernandes e ao qual aceitei de muito bom grado, foi de participar do LusoAvia, o primeiro encontro de aviação de países lusófonos, em outubro de 2017, na Ilha de Porto Santo. Ainda estamos amadurecendo a ideia e meu papel no evento, mas ver a coragem e empenho dos nossos antepassados ecoar nessa relação que temos hoje, entre todos os países que falam uma das mais belas línguas do planeta, é algo digno de nota. Nos próximos meses vocês verão mais coisas sobre o evento, e de que maneira participaremos nele, aqui do Brasil meu amigo Raul Marinho, além de outros nomes relevantes, também já estão confirmados. A aviação é uma paixão que nos une a todos, e a amizade e respeito que nasce desse laço comum, é o que dá sentido a uma vida dedicada a unir o mundo. Como Cabral, Gama, Dias e outros tantos, famosos e anônimos, fizeram antes de nós.

Foto: a imensidão esmagadora do salgado Atlântico Sul, cerca de 700 milhas a Leste de Porto Seguro, onde a frota de Cabral fundeou em 1500. Quanto de seu sal, são lágrimas de Portugal? – perguntou Pessoa.

 


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