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Seremos pilotos mimados?

“Pilotos mimados!” É engraçado como a história nos persegue.

Na minha (curta) carreira de piloto passei de, passo a citar, “militar chulo do estado” para “piloto mimado da TAP”. Começo a pensar que, aos olhos dos meus compatriotas, escolhi a profissão errada. Ou então tenho mau carácter. Por mais dedicados que sejamos. Por mais sacrifícios que façamos. Por mais exigentes nos tornemos ou por mais profissionais que ambicionemos ser, seremos sempre um “chulo” ou um “privilegiado”.

Em Portugal vivemos um determinado complexo de “(in)felicidade”. Se somos felizes naquilo que fazemos então não devemos estar a fazer o nosso trabalho. É, aliás, como se a palavra “infelicidade” fosse sinónimo de “trabalho” num qualquer dicionário de língua portuguesa. E se não formos infelizes algo está muito mal.

Perdi conta às vezes que me disseram “pagam-te para te divertires”. “Efectivamente”, retorquia eu, “que culpa tenho eu de gostar do que faço?”. Ambicionei isso. Procurei-o. Era o meu sonho de criança. E lutei por ele. É, penso eu, aquilo que qualquer um de nós procura fazer. Mas, como em tudo na vida, as pessoas esquecem-se sempre de todos os aspectos menos positivos. As madrugadas. A falta de rotina. O não ter horários. O treino constante. A avaliação permanente. A pressão subjacente.

O requisito físico, e mental, obrigatório. E acima de tudo, a responsabilidade. Essa que é enorme. Seja ela a de ser a última esperança de sobrevivência de alguém, do meio do oceano, no meio de uma tempestade às três da manhã ou a de levar 150 almas em segurança ao seu destino. Mas tudo isso, pelos vistos, não interessa. Só interessa aquele fato de voo ou aquela farda tão elegante.

A aviação ensina-nos e molda-nos um espírito de muitas formas. E uma das grande lições que nos transmite, que nos incute desde cedo, que nos fica gravado na alma é que devemos sempre nivelar por cima. Nunca por baixo.

Devemos sempre procurar a excelência. Porque se não o fizermos, os resultados, nesta profissão, poderão ser desastrosos. E muita dessa mentalidade, desse espírito, se pode aplicar à Vida em geral.

Não me identifico com esta tendência tão recente de alguns meus compatriotas de quererem nivelar por baixo. E de assumirem que, como profissional, não mereço mais do que “mimado” como adjectivo.

Desculpem-me se sou feliz com o que faço, mas isso não vai mudar. Nunca!

 

Ricardo Nunes


Nota: Todos os textos publicados na secção blogger integram um espaço de participação dos leitores e seguidores, que convidamos para tal. São da responsabilidade do autor, sendo que não expressam necessariamente a opinião da NEWSAVIA.

Ricardo Nunes - Blog - NewsAviaApaixonado desde sempre por aviação, o ingresso na especialidade de piloto na Força Aérea Portuguesa em 2005 foi consequência natural desse facto. Piloto operacional de Alouette 3 e de EH-101 “Merlin”, exerceu funções como piloto comandante de busca e salvamento a partir de 2011. Em 2013 ingressou na TAP Portugal. Natural de Lisboa, participa igualmente na organização de diversos eventos de aviação.

 

9 Comments

  1. Bravo!

  2. Carissimo Ricardo,

    Na minha opinião não se questiona agora o profissionalismo e a dedicação que os pilotos da TAP têm no desempenho das suas funções. E caso estivessemos a discutir a exigência dos seus horários e a pressão constante a que são sujeitos, eu estaria na linha da frente para os defender.
    No entanto, aquilo que discutimos hoje tem a ver com a forma como os pilotos têm utilizado um instrumento de melhoria de condições laborais (greve) na obtenção de privilégios supostamente (e inconstitucionalmente) acordados. Aquilo que se discute é a legitimidade dos pilotos da TAP em fazer uma greve de 10 dias, que tem impacto em 350 mil passageiros, para acederem ao capital de uma empresa que é de todos nós.
    Orgulho-me da TAP, acredito no profissionalismo dos seus pilotos, mas pela deturpação do instrumento utilizado (greve) e pela imoralidade de 10 dias de impacto, manifesto-me fervorosamente contra esta greve! Espero que o Ricardo, enquanto apaixonado pela aviação e alguém que concretizou o seu sonho de voar, não condene a TAP à falência e permita que outros mais jovens possam igualmente concretizar esse sonho.

  3. entao e os tecnicos de manutencao, que nem em fim de carreira podem sonhar com o ordenado de um co-piloto macarico? Se o ordenado é indicador do nivel de responsabilidade, quer dizer que os tecnicos tem muito menos responsabilidade que um piloto? Talvez as pessoas se queixem porque, ao contrario do resto do pais, o piloto da tap deve ser das poucas classes profissionais que tem ordenados alinhados com o resto da europa. O senhor sabe quanto ganha um TMA na lufthansa comparado com um da tap? Bem mais do dobro, no entanto, a nivel de cockpit, ganham mais ou menos o mesmo.

  4. Quando um assalariado – e um piloto da TAP é um assalariado – faz greve, ele terá as suas razões para exercer este último e elevado modo de lutar pela sua causa, é assim com todos. No caso particular da TAP, não são os pilotos os responsáveis do estado em que está mas sim os governantes que propositadamente a colocaram de rastos para a “oferecerem” a um qualquer figurão amigo. Estes deveriam ser julgados por crime de lesa-pátria. É justa a greve, se afecta pessoas… todas as greves afectam pessoas, em primeiro lugar os que as fazem, depois temos de considerar que “todos somos culpados” pois só olhamos para o nosso umbigo enquanto não é connosco.

  5. É esse o espírito!

  6. Caro Ricardo:
    O que aqui descreve é o.profissional realizado, que adora aquilo que faz. Identifico-me inteiramente com o personagem pois ele também sou eu. Costumo dizer com frequência aos meus doentes que tenho o privilégio de ser pago para fazer aquilo que gosto. Acho que a imagem de profissionalismo e competência dos pilotosda TAP é percebida pela imensa maioria da população. Também é percebida uma situações remuneratória bem acima da média, justificável pela diferenciação necessária ao exercício das funções e pela enorme responsabilidade que elas acarretam. Mas a compreensão acaba aí pois esbarra numa imagem percebida de exigências desfasadas da realidade, de arrogância e prepotência num período em que quase todos compreenderam a necessidade de alguns sacrifícios. E é daí e apenas daí que vem a imagem do mimado. Será, admito, uma percepção errada, mas é a que prevalece na opinião pública. Proponho-lhe um exercício: como terá percebido, sou médico e se a sua função é transportar vidas sem que elas se percam a minha é salvá-las quando estão à beira de se perder. Penso que este paralelismo será suficiente para nos colocar a ambos em patamares semelhantes de diferenciação e responsabilidade. Desde o início da “crise”, eu e os meus colegas com situação profissional semelhante (médicos hospitalares em regime de CIT e sem actividade privada) sofremos una quebra de rendimento que chegou aos 50%. No entanto, não nos viu em greves sucessivas e a nossa “empresa”, o SNS, apresenta uma situação financeira bem mais saudável que a da TAP que está falida.
    Pergunto-lhe então agora qual foi a quebra de rendimento sofrida pelos pilotos da TAP neste mesmo período em que a generalidade dos trabalhadores portugueses apertou o cinto de forma nsis ou menos violenta. A resposta poderá ser esclarecedora quanto ao motivo de os pilotos da TAP serem percepcionados como mimados peka opinião pública. Se não o for, então terão que rever a vossa estratégia de comunicação pois falhou redondamente.

  7. Ok.Sou dos não duvido das vossas capacidades,bem como a vossa boa qualidade no que fazem,

    nem outra coisa se podia esperar de pessoas inteligentes,como certamente são.

    Mas estamos em PORTUGAL onde ordenado minimo são 505.00 euros!!!!!!!! e taxa desemprego.

    elevadissima como bem sabem,

    Será que não existe trabalho para PILOTOS noutras partes do mundo com melhores condicões ?

    “Ignorancia minha”

  8. O meu caro não faz a mínima ideia do que são sacrifícios, do que é ter que se fazer aquilo que não se gosta por um salário de miséria que não dá para sustentar uma família! Dedicação têm a maioria dos que estão em profissões que não escolheram. Mais, o seu sonho de criança foi-lhe pago pelo contribuinte, por todos os que hoje estão contra esta greve selvagem e sem razão de ser. Não lhe peço para estar agradecido, mas não goze com a cara de quem realmente é dedicado e faz sacrifícios sem ser remunerado em conformidade. Responsabilidade têm muitas classes profissionais, algumas, muito menos bem pagas, têm responsabilidades bastante superiores. Quem está a querer nivelar por baixo são os pilotos que querem aquilo que a empresa não tem para lhes dar simplesmente porque não produz para isso, e para obterem aquilo que não lhes é devido nem tão pouco possível fazem chantagem com a empresa, com milhares de empresas que dependem do turismo e sobretudo com o país. Nem vou falar na questão completamente imoral dos 20% que diz tudo sobre uma classe que se sente acima de todas as outras dentro da empresa, mas deixo-lhe aqui a minha opinião de que esta greve é um enorme abuso de um direito que está instituído na constituição com o último recurso na defesa dos direitos das classes laborais mais desprotegidas e não como chantagem para uma das classes mais privilegiadas tentar obter vantagens que obviamente não lhe são devidas nem tão pouco são exequíveis!

  9. Perfeitamente de acordo. Subscrevo.
    Só não pediria desculpas. Não devemos pedir desculpas pelos nossos sentimentos, pensamentos e crenças.
    Vivemos numa sociedade de muita opressão, que mal respeita os que trabalham com vontade, que se divertem e gostam daquilo que fazem. Que primam pela excelencia. E ainda por cima ganham dinheiro com isso.
    Gostei muito de ler o texto. Deu-me muito prazer. Senti-me grata por ter acesso a ele. Gostaria de o ter escrito.
    Muita luz no seu caminho. Que leve sempre a bom porto os seus passageiros.

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